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  • Unidos de Padre Miguel divulga sinopse do enredo para o Carnaval 2027

    Redação em 23 de Junho de 2026

    A Unidos de Padre Miguel divulgou na tarde desta sexta-feira (19), a sinopse de seu enredo para o Carnaval de 2027. A escola da Vila Vintém vai levar à Marquês de Sapucaí o enredo "Yèyé Omó Ejá – A Coroação das Rainhas das Águas", assinado pelos carnavalescos Allan Barbosa e Ricardo Hessez.

    Inspirada em itans sagrados de Iemanjá, a obra narra a trajetória da orixá, senhora do mar e da liberdade, até o seu encontro com Oxum, divindade dos rios. A passagem das águas doces às águas salgadas marca o fio condutor da narrativa, que promete unir as duas figuras femininas em uma só celebração na avenida.

    A escola promete novidades para o seu concurso de samba no próximo carnaval e novas informações sobre os preparativos para 2027 devem ser divulgadas em breve.

    Em 2027, o Boi Vermelho será a quarta escola a se apresentar na Marquês de Sapucaí, no sábado, dia 06 de fevereiro, em busca do título e do retorno ao Grupo Especial.

    PRELÚDIO

    Os Itans nascem da palavra viva. Correm de boca em boca, mudam de corpo, ganham novas águas

    na voz de quem conta e na memória de quem escuta. Por isso, não cabem em uma única versão.

    São caminhos de Axé, narrativas que atravessam o tempo sem perder o fundamento.

    É dessa ancestralidade que a Unidos de Padre Miguel parte para levar à Sapucaí uma releitura dos

    Itans das divindades africanas que habitam as águas, abrindo caminho para celebrar o encontro

    sagrado de duas Yabás. A escola transforma mitos em canto e conto, reverenciando Yemanjá e

    Oxum como águas de mistério e força.

    Nesta travessia, a Vila Vintém homenageia suas filhas, suas mães, suas avós e todas as mulheres

    que carregam no corpo, na voz e na memória a correnteza do Axé.

    “Mergulhei

    A Unidos foi além da imaginação

    O reino das águas de Olokun…”.

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    SINOPSE

    A avó acolheu a neta no colo, no chão sagrado do terreiro. Conhecia o Axé, o peso das guias no

    pescoço, o cheiro da quartinha lavada. Sabia que história de fundamento nunca vem de uma boca

    só. É rio feito de muitas versões.

    Carnavalescos: Allan Barbosa e Ricardo Hessez | Enredistas: Clark Mangabeira e Victor Marques

    A menina, ainda miúda, ouvia com os olhos acesos, embalada pela doçura de quem já

    testemunhou muitas partidas:

    “Escuta, minha neta. No tempo em que o Infinito era a única morada, Olodumare-Olofin soprou o

    fogo e inventou o começo. Mas a solidão é deserto e, do peito do Senhor do Princípio, brotou o

    mar que engoliu o mundo. Lá embaixo, onde o sol não alcança, Olokun fez seu trono de mistério.

    Mas, acima, onde o sal corta a espuma e nina o balanço dos barcos, quem reina é sua filha,

    Yemanjá, mãe de tudo o que o mundo ainda haveria de conhecer.

    A Rainha se casou com Olofin-Odudua e pariu dez filhos. Guardava consigo um frasco sagrado,

    além de conchas, pentes e búzios — lembranças do mar dados por sua mãe Olokun. Mas até a

    água salgada se cansa quando lhe querem impor margens demais. Triste nas terras de Ifé, Yemanjá

    buscou o horizonte e partiu.

    Foi parar em Abeocutá. Lá encontrou Okerê, o Rei de Xaci. Desse encontro nasceu um amor. O

    casamento foi selado por um pacto de silêncio: ele jamais zombaria de seus seios sagrados, fonte

    perene de nutrição e amor; e ela jamais revelaria as fraquezas que ele escondia quando a noite lhe

    tirava a compostura.

    O pacto é fundamento. Quem rompe o segredo desperta a fúria.

    Um dia, Okerê voltou tomado pela bebida. A cachaça lhe incendiou a língua e ele passou a cuspir

    fogo dentro do próprio lar. Yemanjá ergueu a voz. Não aceitaria a afronta nascida da quebra do

    pacto. Okerê, ferido no orgulho, zombou do corpo da Rainha e afrontou sua grandeza.

    Yemanjá, soberana como o oceano, não aceitou a traição e decidiu partir. Levava consigo a força e

    a certeza de seu poderio. Queria voltar ao colo de Olokun, reencontrar a ancestralidade profunda.

    Na pressa da fuga, o frasco sagrado que trazia consigo, presente de sua mãe, partiu-se ao chão. A

    água doce rasgou a terra e abriu um rio caudaloso. Ali, minha neta, desabrochou a força de Oxum.

    Ela surgiu no brilho das águas doces e caminhou lado a lado com sua mãe Yemanjá.

    Okerê, cego de soberba, tentou barrar a passagem e transformou-se em uma imensa montanha.

    Ergueu-se em muralha de pedra, o grande Oquê, para represar Yemanjá e Oxum.

    Mas a bravura das Yabás não conhece cabresto. Yemanjá evocou a justiça do fogo e convocou seu

    sangue: Xangô. O céu virou breu. O couro do mundo respondeu ao chamado da Mãe. Sob o

    comando de Yemanjá, o trovão anunciou o acerto de contas: o raio de Xangô e a correnteza

    furiosa partiram a soberba de Oquê. A montanha cedeu à força das águas, rachou-se em duas, e o

    rio encontrou caminho.

    Carnavalescos: Allan Barbosa e Ricardo Hessez | Enredistas: Clark Mangabeira e Victor Marques

    Yemanjá seguiu. Oxum seguiu com ela. Quando enfim chegaram ao colo de Olokun, o mar se

    abriu como ventre antigo para receber e coroar suas filhas. Daquele encontro, minha neta, ficou o

    ensinamento: água de Rainha não se barra. Yemanjá é mãe de amor imenso. Oxum é ouro vivo na

    correnteza doce. Quando o rio beijou o mar na foz sagrada, o Axé passou de uma mulher para

    outra e nunca mais deixou de ser encontro.”

    A neta ouviu tudo em silêncio.

    A menina cresceu, os anos passaram, mas a voz da avó permaneceu guardada, ressoando como

    atabaque. Mais tarde, descobriu-se Filha de Yemanjá e compreendeu que sua avó era Filha de

    Oxum. Entre as duas havia uma foz: o encontro de uma avó-rio que banhou a vida de uma

    neta-mar.

    A neta prometeu que aquela voz atravessaria a Avenida em forma de Escola de Samba. Na

    Sapucaí, a Unidos de Padre Miguel desfilará o encontro de Yemanjá e Oxum, inspirada pelos

    Itans das águas e pela memória desse Axé. Hoje, a neta não caminha sozinha. Carrega a avó na

    fúria das águas que lavam o Pavilhão do Boi Vermelho.

    A Vila Vintém, pedindo licença apenas ao Sagrado, abre seus caminhos para contar que nenhuma

    mulher se curva diante de montanha alguma. Onde a avó ensinou amor, a neta conduz o destino.

    O Boi Vermelho brada na Sapucaí: a história de uma mulher pode abrir passagem para muitas.

    No Carnaval de 2027, a voz da avó correrá na neta. A Coroa de Yemanjá e o amor de Oxum

    romperá a pedra e o Boi Vermelho atravessará a Sapucaí levado pela força das águas...

    A Unidos de Padre Miguel, banhada em Axé, deságua na Sapucaí como a eterna correnteza da

    ancestralidade da Vila Vintém




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