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  • Sinopse do Carnaval 2027 | Unidos do Porto da Pedra

    Redação em 09 de Junho de 2026

    APRESENTAÇÃO

    “Se o povo te impressionar demais

    É porque são de lá os teus ancestrais

    Pode crer no axé dos teus ancestrais”

    “Sou filha da Angola

    Sou neta da Bahia

    Sou cria da poesia

    Que vem das ondas do mar”

    “Gente que lutou pra se libertar

    Ver no amanhã novo Sol chegar

    Ter que trabalhar, reconstruir

    Bom futuro há de vir

    Eu vi Luanda, Benguela, Lobito e outras mais

    Na Catumbela, o samba jorrou, me deu sinais

    Que naquela terra cantaram, sambaram meus avós”

    Em 12 de maio de 1980, 64 artistas brasileiros deixaram o Rio de Janeiro para cruzar o

    Atlântico. O destino? Angola, país africano recém-liberto das garras do colonialismo

    português. Assim como o Brasil, esse povo se empenhou em superar a violência da

    colonização para estabelecer uma ideologia da cultura nacional angolana. A turnê

    político-artístico-musical pelas cidades de Luanda, Benguela e Lobito levou na bagagem uma

    sofisticada diversidade musical em intercâmbio com as expressões locais de saberes, culturas,

    danças e músicas. Intercâmbio este que existia antes, existiu durante a viagem e sempre vai

    existir entre as duas nações. Dos cerca de 4,5 milhões de homens, mulheres e crianças pretas

    escravizadas através dos séculos XVI e XIX, calcula-se que cerca de 3 milhões sejam de

    origem bantu, da região da atual Angola.

    Pout-pourri com: “Semba dos Ancestrais” de Martinho da Vila, “Angola”

    de Mart’ nália e “Lá de Angola” de João Nogueira.

    Nessa caravana designada PROJETO KALUNGA estavam netos e bisnetos de escravizados.

    Eram, portanto, artistas africanos em diáspora que ao adentrar o solo africano criaram obras

    musicais populares brasileiras e angolanas para além dos limites do território nacional. A

    expedição foi um novo capítulo nas relações Brasil/África ao realizar a travessia no sentido

    inverso: se outrora seus antepassados cruzaram o mar acorrentados, agora eles retornaram

    livres para celebrar a independência de Angola. Foi um encontro entre povos com raízes

    culturais que se atravessam de uma forma indissociável, incontrolável e encantada.

    Esta jornada tornou Martinho da Vila carinhosamente conhecido pela população angolana

    como embaixador, fez João Nogueira se emocionar como criança ao pisar em Mussulo,

    causou em Dorival Caymmi suspiros ao chegar àquela ilha e se imaginar na “sua Bahia”,

    gerou experiências espirituais em Dona Ivone Lara ao admirar o mar angolano, fez Djavan

    encontrar sua identidade musical e Chico Buarque compor “Morena de Angola” e mais, muito

    mais. A kalunga grande não matou a ancestralidade, ao contrário, a fez resistir e se reinventar

    como festa e alegria de ser, viver e pertencer. Hoje, quase 50 anos depois do Projeto, este

    marco histórico entre Brasil e Angola desembarca em um porto que se enche de orgulho em

    poder homenagear o feito tão simbólico para as culturas brasileira e angolana: o Porto da

    Pedra.

    Sejam bem-vindos de volta.

    Eu sou a Angola que assenta no teu mutuê. O mar assistiu em segredo a sua partida sem

    despedida, mas o agora não mora nas dores do Atlântiko, habita no retorno. Sou PortoTerreiro,

    feito que arde como jindungo. Sou barro e terra onde nossos ancestrais ainda escutam o rugir

    do Tigre no bailar do vento. Símbolo este que te convida de volta.

    Mas não venha como estrangeiro!

    Pise como quem nunca partiu: peça licença, pise descalço, bata cabeça. Cante e dance as

    nossas músicas; Reverencie nossos heróis; Coma a nossa comida com as mãos, sinta o gosto

    dos dedos. O tambor te chama pelo nome! Deixe-me ver nossos deuses no teu corpo. Sussurre

    ao sagrado o segredo dos teus ancestrais.

    SINOPSE

    Bem-vindos de volta.

    Mesmo com o corpo tomado em luta nesses últimos anos, me refiz nas feridas e cobri

    cicatrizes para conhecer o que fez com as sementes que eu te dei. Sei que plantou em morros,

    cortejos, palcos, ruas, sambas e sembas. A arte popular que de longe me vi estar. Trago

    comigo novas sementes plantadas em Luanda, Benguela e Lobito, território livre de onde vi

    brotar a cultura do povo.

    Volte e pegue.

    Não esqueça de mim, pois nunca te esqueci. Para andar para frente, não deixe de olhar para

    trás. Resgate a sabedoria e as raízes do meu passado que brotam em seu legado. Vejo meus

    galhos no folclore alagoano de Djavan; na Morena de Angola de Clara e Chico; na

    negra-Bahia de Caymmi; no colo materno africano embalado na Madureira de Dona Ivone; na

    Ilha de Mussulo de João Nogueira “teve gente que chorou”; “Mas se teu povo te impressionar

    demais,” Martinho, “Pode crer no Axé do Seus Ancestrais” e faz dessa kizomba a constituição

    dessa nação Brasingola, fruto do embondeiro que perpetua nossos laços.

    Texto e Pesquisa:

    Alex Carvalho, Beatriz Chaves, Caio Cidrini e Thainá Santos

    GLOSSÁRIO

     Kalunga: “mar”, “oceano”, grandes massas de água em quimbundo

    •Luanda, Benguela e Lobito: cidades angolanas

    •Mussulo: península de praias de areia branca e águas calmas ao sul de Luanda

    •Mutuê: "cabeça" em quimbundo e um termo central nas religiões de matriz africana

    •Atlântiko: grafia estilizada de oceano no qual trocamos o “c” pelo “k” de Kalunga

    •Jindungo: nome dado em Angola a uma variedade de pimenta malagueta

    Kizomba: termo do quimbundo que significa festa e divertimento

    •Brasingola: termo que une Brasil e Angola de forma indissociável

    •Embondeiro: nome angolano para o baobá, árvore símbolo de resistência,

    ancestralidade, força e sabedoria

    REFERÊNCIAS

    BARRETO, Mariana. O Projeto Kalunga: os significados das produções musicais

    populares brasileira e angolana para além dos limites do território nacional. In:

    Congresso Brasileiro de Sociologia, n. 18, p. 26-29. Brasília (DF), 2017.

    BARRETO, Mariana. Músicas populares e as fronteiras atlânticas da turnê Projeto

    Kalunga em Angola. In: O Público e o Privado, n. 46, p. 78–102. Fortaleza, 2024

    CASTRO, Maurício Barros. de. Diário do Projeto Kalunga: memórias e narrativas de

    uma missão de músicos brasileiros na Guerra Civil de Angola. Textos Escolhidos de

    Cultura e Arte Populares, n. 1, p. 115-126, Rio de Janeiro, 2016

    VILA, Martinho da. Kizombas, Andanças e Festanças. 1. ed. Rio de Janeiro: L. Christiano,

    1992.

    ENREDO EM HOMENAGEM A

    Bahia, Bolinho, Café, Caldeira, Chico Batera, Chico Buarque, Clara Nunes,

    Cristina BuarqueDanilo Caymmi, Djavan, Dona Ivone Lara, Dorival

    Caymmi, Dulce Tupy, Edu Lobo, Elba Ramalho, Fernando Faro, Fernando

    Mansur, Filipe Mukenga, Francis Hime, Geraldo Azevedo, Grupo Nosso

    Samba, Iolanda Huzak, João do Vale, João Nogueira, Lelé, Lessa, Maria do

    Carmo Buarque de Holanda, Marieta Severo, Martinho da Vila, Miúcha,

    Novelli, Olívia Hime, Paulinho Sauer, Quinteto Violado, Roberto Ângelo,

    Rui Mingas, Ruy Faria, Ruy Guerra, Tânia Quaresma, Waldemar Bastos,

    Wanda Sá, Wellington Lima, Zé Luiz e tantos

    outros filhos e filhas da diáspora, artistas das travessias. Aos que vieram

    antes e depois. Aos que se encantaram e aos que persistem. Aos

    brasileiros e aos angolanos. Aos brasingolano



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