NOTÍCIAS / Tudo sobre Samba
-
Nova mostra do Museu do Samba, 'Alvoradas de Cartola' exibe fotos raras, objetos pessoais, poesia inédita e olhar intimista sobre o compositor
Redação em 17 de Dezembro de 2025
Neta de Angenor de Oliveira assina a curadoria da atração, que tem cenários instagramáveis, 'sala de cinema' e Fernanda Montenegro declamando poema
'Alvoradas de Cartola', nova exposição do Museu do Samba, é um olhar íntimo e afetivo sobre a vida, os amores, as canções e a poesia de Angenor de Oliveira. Um ponto de vista e um modo de contar possíveis apenas para quem datilografou manuscritos do mestre, segurou o gravador (analógico) para registrar suas composições e, com água na boca, esperou ao seu lado, na porta da cozinha, a feijoada de Dona Zica ficar pronta. Esta é a aposta de 'Alvoradas de Cartola', mostra recém-inaugurada em uma nova área do Museu do Samba, localizado no bairro de Mangueira, próximo ao morro em que viveu e celebrizou-se Cartola.
A exposição 'Alvoradas de Cartola' é patrocinada pelo Ministério da Cultura, por meio do Instituto Brasileiros de Museus (Ibram) e conta com apoio da Fundação Museu da Imagem e do Som, Instituto Moreira Salles, Arquivo Nacional, Acervo Histórico Light e Biblioteca Nacional.
'Alvoradas de Cartola' conta com mais de cem itens, organizados em sete núcleos, batizados de 'A poética de cartola', 'Cartola e o morro', 'Zica e Cartola', 'Zicartola', 'A Mangueira', 'Zica é Mangueira, é Rio, é do Brasil', 'Cartola é o Brasil'. Estão expostos objetos pessoais, fotos raras, manuscritos de canções, e farto material audiovisual, com ilhas para audição de canções e vídeos, além de sala para exibição de um documentário (do Globoplay).
Entre os objetos pessoais expostos, destaque para o violão de Cartola, o manuscrito original de 'As rosas não falam', o gravador (analógico) usado pelo mangueirense para gravar suas composições, sua máquina (mecânica) de datilografia e seu caderno pessoal de anotações. Uma réplica do figurino usado por Cartola na comissão de frente da Mangueira em 1978, ano de seu último desfile na Verde e Rosa. Com um detalhe: a fantasia foi usada por Leci Brandão no Show das Campeãs do Carnaval de 2025 e doada pela artista para a exposição.
Duas poesias inéditas de Angenor de Oliveira estão presentes, com os manuscritos expostos publicamente pela primeira vez. Uma delas, intitulada 'Quero mais rugas na face', ganhou uma interpretação de Fernanda Montenegro, exclusiva para a exposição, que poderá ser ouvida em uma das ilhas de áudio.
Na área interna do Museu do Samba, em frente à entrada da exposição, uma instalação de madeira reproduz a fachada com a janela da casa de Cartola e Dona Zica no Morro de Mangueira, eternizada em foto de Walter Firmo, mostrando o casal debruçado na janela olhando o canteiro de rosas que inspirou a criação de 'As rosas não falam'. Já no núcleo sobre Dona Zica, o visitante se depara com uma instalação com dezenas de colheres de pau, uma alusão ao talento culinário da famosa líder do Morro de Mangueira.
No final do circuito, o espectador pode assistir a um vídeo que combina dramaturgia e documentário biográfico sobre a vida de Cartola (original Globoplay), exibido em uma pequena "sala de cinema" de doze lugares, criada exclusivamente para a atração.
Ao longo dos corredores da exposição, há espaços em que o visitante pode sentar e assistir vídeos com depoimentos inéditos de amigos e parceiros do sambista, produzidos exclusivamente para a exposição. Os depoentes são: Walter Firmo, fotógrafo amigo de Cartola e autor de algumas das fotos mais antológicas da vida do compositor; Dalmo Castello, parceiro em canções como 'Corra e olhe o céu' e 'Disfarça e chora"; Milton Manhães, produtor e arranjador; e Claudio Jorge de Barros, violonista.
Curadoria feita pela neta do compositor, textos de Geraldinho Carneiro - A curadoria de 'Alvoradas de Cartola' é assinada por Nilcemar Nogueira, neta de Cartola e Dona Zica, e fundadora do Museu do Samba – que aliás, foi inaugurado com o nome de Centro Cultural Cartola, em 2001, para abrigar, inicialmente, o acervo do sambista. Os textos da exposição são assinados pelo poeta Geraldinho Carneiro, que analisa a poética de Cartola, pelo escritor Maurício Barros de Castro, autor do livro 'Zicartola: política e samba na casa de Cartola e Dona Zica', e pelo sociólogo Paulo Baía, além da própria Nilcemar Nogueira.
Além de recorrer à reserva técnica do próprio museu, Nilcemar revolveu memórias e o acervo pessoal, mobilizou amigos ainda vivos de seu avô e acionou instituições que guardam registros raros do compositor, entre elas a Fundação Museu da Imagem e do Som, Instituto Moreira Salles, Arquivo Nacional, Acervo Histórico Light e Biblioteca Nacional.
"Quem visitar a exposição vai entender um pouco do coração e da alma do meu avô, como ele se portava diante do amor mas também diante da ingratidão e das injustiças; é uma mostra para sentir o lirismo e a sofisticação da arte de Cartola e, ao mesmo tempo, para refletir sobre desigualdade e resiliência em forma de poesia, afinal, o que aconteceu com meu avô, continua acontecendo com artistas negros das periferias do Brasil – precisamos resgatar e dar oportunidade para que surjam, quem sabe, outros Cartolas", afirma Nilcemar Nogueira.
SERVIÇO
Exposições/Museus
Alvoradas de Cartola
Museu do Samba
Rua Visconde de Niterói, 1296 – Mangueira
Dias e Horário: de terça a sábado, das 10h às 17h
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia entrada)

