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Museu do Samba dá início à nova temporada de depoimentos inéditos de grandes sambistas para o acervo da instituição
Redação em 11 de Setembro de 2026
Maestro Rildo Hora e o intérprete Zé Paulo Sierra foram entrevistados para o projeto "Memória das Matrizes do Samba do Rio de Janeiro"
Detentor de um acervo com mais de 50 mil itens e do maior centro de documentação do país especializado em samba, o Museu do Samba deu início nesta quinta-feira, 10 de setembro, a uma nova temporada de gravações de depoimentos de grandes nomes da história do gênero. O maestro, arranjador e gaitista Rildo Hora e o intérprete da União de Maricá, Zé Paulo Sierra, foram os primeiros entrevistados, revelando histórias e curiosidades sobre suas bem-sucedidas carreiras para o projeto "Memória das Matrizes do Samba do Rio de Janeiro". A iniciativa conta com apoio do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), com gravações realizadas na sede do Museu do Samba, na rua Visconde de Niterói nº 1296, na Mangueira, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
As próximas gravações acontecem nos dias 17 e 19 de setembro, e em 8 de outubro, com registros de depoimentos de Claudinho (mestre-sala da Beija-Flor), Ludmila Aquino (destaque da Mangueira), Milton Cunha (apresentador e carnavalesco), e dos compositores Claudio Russo e Moacyr Luz.
O projeto "Memória das Matrizes do Samba do Rio de Janeiro" é realizado desde 2009, e já produziu um acervo original – e inédito – com quase 200 personagens marcantes da cultura do samba e do carnaval, nomes como Alcione, Dona Ivone Lara, Nelson Sargento, Monarco, Tia Surica, Haroldo Costa, Mestre Ciça, Neguinho da Beija-Flor, do lendário mestre-sala Delegado e das porta-bandeiras Selminha Sorriso, Dodô da Portela e Vilma Nascimento. O material está disponível para consulta e pesquisa, mediante agendamento pelo e-mail contato@museudosamba.org.br.
"A história oral é uma fonte documental poderosa e legítima, principalmente quando dá voz a pessoas historicamente silenciadas, como são muitos dos artistas deste que é o gênero mais identitário do Brasil; aqui no Museu do Samba, os protagonistas são os sambistas, que contam memórias e histórias por um ângulo e um 'modo de dizer' que não chegam a livros e páginas de jornais, mas que, na prática, é o que perpetua o samba e as múltiplas práticas culturais nele contidas", afirma Nilcemar Nogueira, fundadora do Museu do Samba e neta do compositor Cartola e de Dona Zica da Mangueira.
O arranjo de "As rosas não falam" e vozes femininas no carro de som dos desfiles
Os depoimentos registrados pelo Museu do Samba costumam revelar informações desconhecidas dos bastidores do samba e do carnaval, contadas pelas vozes e pontos de vistas de seus protagonistas. Nas entrevistas de Rildo Hora e Zé Paulo Sierra, não foi diferente.
Celebrado como "arquiteto da sonoridade do samba contemporâneo", Rildo Hora, 87 anos, é "a marca" por trás de arranjos e produções musicais antológicas de Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, João Bosco, Clara Nunes, Luiz Gonzaga, Dona Ivone Lara e Dudu Nobre, entre outros grandes artistas brasileiros. Na tarde de relatos memorialísticos no Museu do samba, Rildo abordou particularidades do primeiro arranjo comercial feito para "As rosas não falam", obra do compositor Cartola gravado por Beth Carvalho em 1976, no álbum "Mundo Melhor" (gravadora RCA Victor).
"Foi um depoimento muito especial, em que me dei conta de que me tornei a guardiã do acervo de um grande mestre, um grande maestro que eu admirava desde menina, quando via o Rildo frequentando a casa e trabalhando com meu avô Cartola e com outros intérpretes que gravaram suas músicas", conta Nilcemar Nogueira.
Atual intérprete da União de Maricá, agremiação que estreia em 2027 no Grupo Especial dos desfiles do Rio de Janeiro, Zé Paulo Sierra destacou em seu depoimento a importância da presença de vozes femininas de apoio no carro de som. Segundo o artista, o canto feminino contribui para uma melhor harmonia e para o canto da própria escola de samba nos desfiles, uma vez que as mulheres constituem o maior número entre os desfilantes.
Aos 50 anos, Zé Paulo tem se consagrado como uma das vozes e personalidades mais marcantes da Marquês de Sapucaí. Além de interpretações antológicas em agremiações como Mangueira, Viradouro, Mocidade Independente de Padre Miguel e Portela, o cantor se destacada pela produção diferenciada de seus figurinos de desfile. Nos últimos dez anos, ele trocou o tradicional paletó, usado pela maioria dos intérpretes nos desfiles, por fantasias.
Artistas doaram itens pessoais para acervo da instituição
Um ponto em comum une os dois depoentes da nova temporada do projeto "Memória das Matrizes do Samba do Rio de Janeiro": tanto Rildo Hora quanto Zé Paulo Sierra doaram itens de suas coleções pessoais para o acervo do Museu do Samba.
Entre os objetos doados por Rildo estão partituras, documentos e premiações; já Zé Paulo doou fantasias icônicas usadas por ele na Sapucaí, como a do enredo "O Alabê de Jerusalém: a Saga de Ogundana", no carnaval de 2016 da Viradouro, quando suas vestes lembravam as de São João Batista, e a indumentária usada no enredo sobre o caju, da Mocidade Independente de Padre Miguel, em 2024, quando cruzou a Avenida com um visual tropical, e a cabeça raspada e pintada.
"Muitos sambistas doam peças importantes de sua trajetória, pois sabem que aqui temos espaço e equipamentos adequados para guarda e conservação de documentos, objetos e até mesmo fantasias, que são acondicionados em nossa reserva técnica para futuras exposições ou para pesquisas; nosso acervo conta com itens de ícones como Alcione, Leci Brandão, Wilson das Neves, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Arlindo Cruz e do meu avô Cartola, entre tantos outros", conta Nilcemar Nogueira.

