NOTÍCIAS / Tudo sobre Samba

  • EM CIMA DA HORA DISPONIBILIZA SINOPSE OFICIAL DO CARNAVAL 2027

    Redação em 15 de Julho de 2026

    A G.R.E.S. Em Cima da Hora disponibilizou a sinopse oficial do enredo "Luzia Pinta – Da Calunga Grande aos Calundus de Cura", que será desenvolvido pela escola no Carnaval 2027. O material, elaborado pelos carnavalescos Cahê Rodrigues e Rodrigo Almeida, com pesquisa e texto de Anderclébio Macêdo, já está disponível e servirá de base para os compositores interessados em participar da disputa que definirá o samba-enredo da agremiação.


    A sinopse apresenta a trajetória de Luzia Pinta, personagem histórica cuja vida se tornou símbolo de resistência, ancestralidade e preservação dos saberes afro-brasileiros. A narrativa destaca sua atuação como calunduzeira, curandeira e rezadeira, evidenciando a importância dos calundus na formação das religiões de matriz africana e no fortalecimento da memória, da identidade e da espiritualidade do povo negro no Brasil.


    Com a disponibilização da sinopse, a azul e branca de Cavalcanti avança na construção do projeto para o Carnaval 2027 e dá início a uma nova etapa do desenvolvimento do enredo, oferecendo aos compositores o material que norteará o processo de criação dos sambas concorrentes.


    A direção da escola informa que, em breve, serão divulgados o regulamento da disputa de samba-enredo, o calendário oficial, o período de inscrições das parcerias e as demais orientações para os compositores.


    A Em Cima da Hora convida compositores, segmentos, torcedores e apaixonados pelo Carnaval a mergulharem na leitura da sinopse e conhecerem a história que ganhará vida na Marquês de Sapucaí em 2027.




    SERVIÇO


    Enredo: Luzia Pinta – Da Calunga Grande aos Calundus de Cura


    Carnavalescos: Cahê Rodrigues e Rodrigo Almeida


    Pesquisa e texto: Anderclébio Macêdo




    LUZIA PINTA – DA CALUNGA GRANDE AOS CALUNDUS DE CURA

    ARGUMENTO

    Os saberes ancestrais guardados e protegidos ao longo do tempo são a

    chave para a compreensão dos mistérios e da verdade que envolve um ou mais

    povos.

    Luzia Pinta, a menina escravizada, sequestrada de sua terra e

    introduzida no modelo de escravidão praticado durante o Brasil Colonial, em

    pleno século XVIII, é certamente um dos grandes pilares de sustentação destes

    saberes. Tendo em sua origem raízes centro-africanas-ocidentais e da nação

    Angola de onde, certamente, aprendeu a cultuar e legitimar seus antepassados.

    Sua história é guiada pela prática do Calundu, um sistema cerimonial

    que envolve dança, canto, ritmos e incorporações de modo a proporcionar cura

    e alento. Muito provavelmente teria sido uma das primeiras manifestações

    espirituais e de reconexão com a ancestralidade do povo preto vivente em solo

    brasileiro. Nela se apresentou outras formas de celebração, incorporando outros

    saberes e ritos já existentes aqui, numa tentativa única de preservar os seus

    mistérios ancestrais.

    Ao tornar-se calunduzeira, curandeira e rezadeira, preserva e reverencia

    a sua ancestralidade, com a continuidade do matriarcado, fundamentando e

    valorizando todas aquelas que vieram antes, e como tais, dignas de honra e

    celebração.

    Enfrentou o julgo do opressor sob o cárcere da cruz. Dignificou sua raiz

    e transcendeu, deixando um legado imaterial de serviço, respeito, memória

    ancestral, identidade e pertencimento. Tornando-se referência para os que ainda

    precisam lutar pela reconstrução da história e da memória do povo preto neste

    país.

    Sob a luz desta espiritualidade a história de Luzia Pinta, é também a

    história do povo preto e parte essencial no entendimento sobre o calundu no

    Brasil. E não importa o tempo que se demorou, ela ganhou nova vida, reforçando

    o sentindo de origem e continuidade.


    JUSTIFICATIVA

    Os apagamentos e os esquecimentos históricos perpetuados ao longo

    do período em que a escravidão era uma realidade no Brasil, fizeram muitas

    vítimas, entre elas, Luzia Pinta. Seu nome ficou escondido entre registros antigos

    que vieram à luz tanto no Brasil quanto em Portugal.

    Luzia Pinta tornou-se personagem principal na pesquisa de muitos

    estudiosos, seja em busca de respostas sobre o período em que viveu, o papel

    da mulher escravizada ou forra que ascende nesta sociedade, sua saga e

    relevância histórica e espiritual, seja pelo entendimento sobre as práticas

    inquisitoriais ou ainda para compreender a manifestação dos calundus em seus

    ritos e celebrações praticados no Brasil.

    Sua história é um farol para todos que vivem à mercê do medo e do

    preconceito, celebrando suas conquistas, priorizando sua cultura e sua

    liberdade. Sendo ainda mantenedora e promotora dos saberes ancestrais e da

    exaltação do matriarcado. Mantendo sua missão atuante ao se manifestar em

    tantas outras mulheres que, na história do seu povo, foram farol, alicerce, colo e

    afeto mediante tantas lutas que se fizeram e fazem valer.

    Vivenciar Luzia Pinta e os Calundus é reverberar o sentido de

    pertencimento, liberdade e a religiosidade neste Brasil, experienciando o pulsar

    da vida que flui da sua força e da sua dignidade em honra a toda a

    ancestralidade.

    Ao se inspirar nos diversos estudos, artigos e livros que retratam Luzia

    Pinta, a Em Cima da Hora evidencia e valoriza o trabalho destes historiadores e

    pesquisadores que se debruçam sobre o passado trazendo à luz histórias

    esquecidas em que a ancestralidade se apresenta. A mesma em que as escolas

    de samba estão inseridas, perpetuando o legado do seu povo também.

    Salve Luzia Pinta e os calundus do Brasil!

    SINOPSE

    “- Para onde você vai?”

    “- Para onde? Eu não sei.”

    “- Vá embora logo, porque brevemente haverá de voltar.”

    Eram tempos difíceis. Guerras, conflitos e escravidão.

    A paz banida daquela terra nunca a conheceu.

    Estar entre os vivos e os mortos fazia parte da sua sina.

    Até o dia em que se encantou e, ancestralizada, se achegou por aqui.

    Me chamo Luzia Pinta, foi assim que segui denominada desde que na Bahia

    aportei. Meu testamento é a vida que vivi. Minha herança é a mesma que herdei

    na Angola em que nasci e, até onde pude, me criei. E foi naquele tempo, sob o

    tormento da aflição, que por volta dos doze anos, determinaram meu destino. Do

    pouco que me lembro trouxe na bagagem da memória a família que o tempo

    levou. Cativa, atravessei a calunga grande e nela sentia que parte de mim

    renascia, fazendo-se presentes diversos kilundus que nessa jornada me

    acompanharam mesmo quando ainda não os entendia. A força de TembaNdumba me conduziu para além da dor e desolação. E neste cenário de

    desesperança, meu pertencimento deu a dimensão de que tudo o que me formou

    transcendia no meu existir.

    Sua jornada se ancora entremundos.

    Desde as visões que teve ainda menina e as dúvidas que perseguiu

    Onde velhas anciãs, rios e caminhos se cruzavam

    Até os pontos de transição em que teve de enfrentar

    Seja nas correntezas dos rios que te puseram a percorrer

    Ou no peso de ouro que se valeu para pagar a liberdade que tanto almejou.

    Cheguei pelas bandas das minas e, margeando o Rio das Velhas, que me pus a

    perceber que ali estaria presa minha alma, à sombra da amargura e do

    sofrimento que atravessariam meu corpo. Percorri as ruas e ladeiras de Sabará

    e região, fazendo do ganho a ponte para a minha liberdade; o mesmo sustento

    como de tantas outras assim como eu. Ali teve início meu ato de missão.

    Calunduzeira me tornei, adivinhadeira e curandeira também. Alcunhas pelas

    quais o povo me tomou. Povo, que por muito tempo cuidei, os mesmos que as

    boas relações sustentaram em nome da liberdade para praticar meu calundu.

    Mas que um dia me trairiam sob o pavor da inquisição.

    Na mistura plural das origens que pulsam nesse imenso Brasil

    Um calundu abrasileirado ela criou, à revelia de qualquer comparação.

    Heranças africanas, saberes do negro da terra que ela também usaria.

    A sua vestimenta podia ser como a de um anjo ou seguir “à moda turquesa”,

    Um véu de penas descia pelas costas quando se punha a curar.

    Com seu penacho e penduricalhos, seu corpo era conduzido

    Ao transe em que se envolvia através do som dos tambores.

    Onde o Pau Santo e a raiz de Abutua atuavam como garantia

    E em outros ritos se valia do poder das ervas, unguentos e beberagens.

    Até o dia em que não pôde mais praticar calundu.

    Isto seguiu, até quando deixou de ser a Xinguila, a Sacerdotisa ancestral

    Se tornando aos olhos da cruz a feiticeira.

    Tudo o que fiz foi seguir o que diziam os ventos de adivinhar, afinal, como me foi

    dito ainda menina, seria a voz de Deus. E sob intercessão de Nossa Senhora,

    Santo Antônio e São Gonçalo, rezei, benzi, bani a aflição e a angústia de quem

    não sabia a quem mais recorrer. Foi assim que meu caminho construí, por longos

    anos à vista de toda aquela gente. De senhores a doutores, padres e ouvidores,

    o meu fazer não era segredo. Mas, tempos sombrios eu vi chegar e sob o julgo

    da inquisição fui levada. Tudo o que construí, sinônimo de minha história, ruiu.

    Deixei para trás as celebrações aos meus antepassados nas cerimônias dos

    calundus que, do meu jeito, pratiquei em honra aos meus ancestrais. De certo

    que eles permaneceram comigo por onde fui, até mesmo durante os açoites,

    torturas e julgamentos. E quando a tudo isso não sucumbi, vi aflorar a ira do meu

    inquisidor. Condenada, degredada e impedida de voltar aos meus lugares, a

    memória me trouxe a grande calunga e o seu limiar entre os vivos e os mortos

    em seu fluxo contínuo entre desaparecer e se eternizar.

    Sob a guarda do tempo ela se encantou.

    Para que, eternizada, fizesse valer a sina dos ancestrais.

    Os calundus que tanto manifestou foram o esteio e camuflagem

    Para outros novos saberes que nesta terra se puseram a enraizar.

    Do povo de Ketu, veio florescer o Candomblé naqueles Calundus de Tia Adetá

    Disfarce inicial para que na Barroquinha, Casa Branca fosse a pioneira.

    Cabulas, macumbas, entre matas e cidades, ritos e rituais

    Ampararam quem ao invisível prestou devoção

    Onde saberes plurais se encontraram e se manifestaram

    E o sentir e o experienciar ganharam espaço e outras interpretações.

    A umbanda talvez tenha o fundamento principal

    Que faz dela herdeira direta dos calundus praticados no Brasil.

    Saberes ancestrais, entrelaçados com encantados que estiveram neste chão

    Comungando sob o elo primordial de ser fonte de cura e de alento.

    Por via de uma ancestralidade que se encruza para além do tempo.

    Eu percebo que eu e os calundus transcenderam o tempo sob o limite da vida e

    da morte e outros elos espirituais, através do encanto que minha sina

    determinou. E, quando finalmente me “encontraram”, me encantei outra vez,

    saída das manchas da escravidão, das páginas empoeiradas da inquisição, no

    Brasil e em Portugal. E, além de mim, vi ramificar os saberes, as identidades e

    pertencimentos, principalmente, quando outra mulher é a escolhida para

    proteger e preservar os mistérios ancestrais, lançando luz sobre a obscuridade

    do passado onde tentaram nos apagar e nos deixar esquecidas.

    Sou apenas a mulher que um dia seguiu o chamado. Sendo canal, tal qual aquela

    mulher que benze, a que reza, a que cuida, a que ministra ervas e raízes, a que

    se inicia nos preceitos e a que se torna mãe de santo. Sou parte também

    daquelas que se mantêm na luta por dignidade, liberdade e respeito; um signo

    da representatividade ao testemunhar a preservação do matriarcado ancestral,

    fruto do legado que faz valer a missão que elas acolheram e, por continuidade,

    quem sabe um dia, se encantarão também.

    O que eu não sabia, meus ancestrais me ensinaram.

    A velha anciã que um dia me guiou se foi. Hoje, a anciã sou eu!

    Luzia Pinta é fonte a se beber, é saber profundo

    Mistério que aos poucos vem sendo decifrado

    Admirando a vida que os calundus lhe fizeram percorrer

    Desde a calunga grande e transitando pela escravidão

    Nesta sua saga, sina ou missão, numa vida dedicada ao bem e ao sagrado

    Sendo referência de real poder, amparada pelos saberes ancestrais

    Fazendo o Brasil te exaltar e todo o mundo conhecer

    O legado de mais uma mulher preta do nosso passado.

    Carnavalescos: Cahê Rodrigues e Rodrigo Almeida

    Pesquisa e Texto: Anderclébio Macêdo


    REFERÊNCIAS

    COSTA, Hulda Silva Cedro. Umbanda, Uma Religião Sincrética e Brasileira. PUC

    – Goiás. 2013.

    DAILBERT JR., Robert. Luzia Pinta: experiências religiosas contro-africanas e

    Inquisição no século XVIII. Religare, V.9, n. 1. 2016. Disponível em: <

    https://periodicos.ufpb.br/index.php/religare/article/view/15802/9047 >.

    FERREIRA, Elisangela Oliveira. O Santo de sua terra na terra de todos os

    santos: Rituais de Calundu na Bahia Colonial. Universidade do Estado da Bahia.

    2016.

    LIMA, Douglas. Libertos, patronos e tabeliães: a escrita da escravidão e da

    liberdade em alforrias notariais. Belo Horizonte: Caravana Grupo Editorial, 2020.

    MARCUSSI, Alexandre Almeida. Cativeiro e Cura – Experiências Religiosas na

    Escravidão Atlântica nos Calundus de Luzia Pinta, séculos XVII e XVIII. USP –

    2015.

    MOTT, Luiz. O Calundu-Angola de Luzia Pinta – Sabará 1739. Revista do

    Instituto de Arte e Cultura, Ouro Preto, n. 1, p. 73-82, dez. 1994.

    NOGUEIRA, André. Os Calundus e as Minas Gerais do século XVIII. ANPUH –

    XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009.

    NOGUEIRA, Guilherme Dantas. Tradição Calunduzeira: um conceito diaspórico.

    Dossiê Gênero, memória e cultura. Arquivos do CMD, Volume 8, N.2. Jul/Dez

    2019.

    NOGUEIRA. Guilherme Dantas. NOGUEIRA. Nilo Sérgio. Seu Cangira, deixa a

    gira girar: a cabula capixaba e seus vestígios em Minas Gerais. Revista Calundu

    - vol. 1, n.2, jul-dez 2017.

    PAULA, Eduardo de. Luzia de Soledade – Vítima da Inquisição em Sabará. Blog

    Sou Sabará. Disponível em: < https://sousabara.com.br/historia/luzia-dasoledade-vitima-da-inquisicao-em-sabara/>.

    PRADO, Andreza Silva. Um outro olhar sobre a repressão sofrida pelos

    Calundus no Nordeste e Sudeste do Brasil: séculos XVI a XVIII. Revista: Em

    favor da igualdade racial. Rio Branco – Acre. V. 4. N. 2. Pg. 18-32. 2021.

    RAMOS, Argemiro Afonso. Luzia Pinta – A Mulher que Enfrentou a Inquisição no

    Brasil. Ouro Preto. Caravana Grupo Editorial. 2025.

    SANTOS, Nágila Oliveira dos. Do Calundu Colonial aos primeiros Terreiros de

    Candomblé do Brasil: de culto doméstico à organização político-social-religiosa.

    Revista África e Africanidades. Ano 1, n 1. 2008.

    SILVA, Paula Maria Fernanda da. O Histórico das Religiões Afrobrasileiras: do

    Calundu à Umbanda. II Colóquio Internacional de História – UFCG. 2010.

    SILVEIRA. Renato da. Do Calundu ao Candomblé. Salvador, 2014. Disponível

    em:< https://vermelho.org.br/2014/05/23/do-calundu-ao-candomble/ >.

    SOUZA, Laura Mello. Revisitando o Calundu. USP. 2002. Disponível em:<

    https://historia.fflch.usp.br/sites/historia.fflch.usp.br/files/CALUNDU_0.pdf >.



ANUNCIANTES






SIGA O Ti Ti Ti!