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Cordão do Boitatá encanta com pernaltas e cortejo sem trio no Centro
Redação em 09 de Fevereiro de 2026
Domingo contou ainda com Suvaco de Cristo, Fogo e Paixão, Chora Me Liga e mais
O público fez coro e cantou junto durante o cortejo do Cordão do Boitatá, realizado neste domingo (8), no Circuito Preta Gil, no Centro do Rio. No ano em que completa 30 anos de história, o bloco passou a integrar oficialmente a lista de megablocos da Cidade Maravilhosa e encantou os foliões com um desfile marcado por pernaltas, estandartes, baianas e uma atmosfera de celebração coletiva.
O Boitatá levou às ruas 250 músicos, além de quase 400 integrantes, mantendo sua característica de desfilar sem carro de som. Após um longo período afastado da região, o bloco voltou a ocupar a Avenida Primeiro de Março e arredores, em um trajeto pensado para comportar a grandiosidade da festa.
Durante o cortejo, o repertório passeou por sambas, marchinhas, afoxés e frevos. O público também pôde conferir arranjos originais de nomes como Moacir Santos, Villa-Lobos, Pixinguinha, Maestro Duda e Braguinha, além de composições criadas especialmente para a orquestra do Boitatá, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Rio de Janeiro.
"É uma alegria muito grande podermos voltar ao circuito da praça XV, de onde a gente saiu em 2012 e, sobretudo, ser reconhecido pela Riotur nesse espaço, que prova a importância da brincadeira do cordão para o carnaval da cidade. O Boitatá já é megabloco há muito tempo, pelo público que tem e por todos os outros indicadores que a gente também abarca. Estamos super felizes", celebrou Kiko Horta, um dos fundadores do grupo.
Logo atrás, um casal de mestre-sala e porta-bandeira, junto de um boneco gigante de papel machê do compositor e arranjador Pixinguinha, e um grupo de de pernaltas liderada pela artista e produtora cultural Raquel Poti, que desfila pela agremiação há 12 anos.
"O Boitatá foi um dos primeiros blocos que abraçou e recebeu a nossa ala de pernaltas douradas, que esse ano completa 11 anos. E é uma grande escola, uma escola de vida. Eu costumo dizer que no Boitatá a gente aprende os valores que norteiam a festa do Carnaval desde a base. Dessa base das relações, do respeito à rua, do cuidado, com as energias que a gente compartilha. Tudo que a gente aprende aqui no Boitatá funciona para nos tornarmos pessoas melhores.", afirmou Poti.
A carioca Luana Schellenberg, de 33 anos, chegou ao bloco cedo para ficar na corda e, mesmo grávida, falou que escolheu o Boitatá para curtir por considerar o melhor da cidade.
"Não queria deixar de curtir o Boitatá, que é um dos meus blocos favoritos. Acho muito lindo porque tem a ala das pernaltas, os estandartes, os músicos são ótimos, então é um pouquinho do Carnaval que eu acredito", afirmou ela, com um desenho de estrela na barriga.
No meio do desfile, o boneco gigante de Pixinguinha virou-se para as pernaltas, que estenderam uma faixa em homenagem a Preta Gil, cantora que morreu em 2025 e dá nome ao circuito de megablocos do Rio. Ao som de "Sinais de Fogo", todos que acompanhavam o desfile se emocionaram e gritaram o nome da artista filha de Gilberto Gil, que marcou a história da música brasileira.
Fogo e Paixão faz homenagem às novelas
O que Jorge Tadeu, Perpétua, Viúva Porcina e o mordomo Crô têm em comum? Todos estavam juntos na manhã deste domingo, na bateria do bloco Fogo e Paixão, que fez seu 16º desfile no Largo de São Francisco de Paula, no Centro do Rio. Com o tema Carnovelas, o bloco prestou uma bela homenagem às teledramaturgias, uma das maiores paixões nacionais.
Sucesso nos anos 80, a cantora Rosana, do hit "Como Uma Deusa", fez uma participação especial no bloco, que tem o nome inspirado no sucesso do cantor Wando.
Pedro de Moraes Martins, um dos fundadores do bloco, explicou que a força do desfile está justamente no espírito coletivo e na proximidade com o público. Organizado por um grupo de mais de 100 pessoas, o bloco nasceu da ideia de que todos ali são, antes de tudo, foliões.
A proposta é simples e direta: criar um espaço em que bateria e público se misturem, fantasiados, celebrando juntos o Carnaval. Sem camisa oficial, a bateria aposta na criatividade e na interação constante, reforçando a ideia de que a festa só faz sentido quando todo mundo participa. Após 16 anos de história, o desafio de se reinventar segue presente, e foi assim que surgiu o tema deste ano, inspirado em novelas brasileiras, permitindo que músicos e foliões entrassem de vez no clima, com personagens icônicos espalhados pelo cortejo.
"A gente busca o máximo de interação possível, porque Carnaval é bateria junto com o folião, todo mundo se divertindo junto. E aí, depois de 16 anos, a gente pensou: o que dá pra fazer de diferente? Um batuqueiro sugeriu o tema da novela, porque tem muita música emblemática e dá pra todo mundo entrar na brincadeira. A ideia surgiu assim, do nada, e deu super certo. A bateria veio toda fantasiada, o público também: tem Viúva Porcina, Nazaré, Tieta... eu mesmo vou de Jorge Tadeu.", contou.
Bruno Ribeiro, percussionista, estava fantasiado de Perpétua, em homenagem à vilã icônica de "Tieta" (1989), vivida por Joana Fomm.
"É uma novela muito emblemática, assim, e tem personagens que são icônicos, atravessam gerações, e por mais que o tempo passe, essas pessoas continuam existindo na vida real, principalmente os fiscais da vida alheia. Aí a gente acha que é uma oportunidade da gente trazer essa história pro cotidiano através dessas releituras do Bloco Fogo e Paixão", disse.
O bloco está participando da campanha "Não é Não, respeite a decisão", promovida pela Secretaria de Estado da Mulher.
A arquiteta Ana Beatriz, ritmista do bloco, veio representando a personagem Bebel, vivida por Camila Pitanga na novela "Paraíso Tropical" (2007). Como par romântico de Wagner Moura, Ana levou uma imagem do ator para acompanhá-la. "A Bebel sem Olavo, não existe. Então é uma homenagem à Camila Pitanga e ao Wagner Moura. É tão importante para o cenário nacional e cultural. E o Wagner já veio aqui com um globo de ouro na mão. Vai ser lindo!", vibrou.
Entre as músicas que animaram os foliões do bloco estavam "Tieta", de Luiz Caldas, "Quatro Semanas de Amor", de Luan e Vanessa, "Turu Turu", de Sandy e Junior e "A Viagem", de Roupa Nova. O repertório também teve espaço para novos sucessos como "Eu tenho a Senha", de João Gomes.
"Venho para o Fogo e Paixão desde quando ele surgiu, há 16 anos. Adorei o tema desse ano, porque são músicas da minha época, que me tocam, me atravessam. E esse ano tá homenageando novelas, que eu assisto desde criança. É pura emoção ver esses personagens que sempre fizeram parte da minha vida aqui na minha frente, em carne e osso. Isso é a cara do Carnaval de rua!", disse o folião Eduardo Costa.
O Fogo e Paixão relembrou um dos maiores autores de novela do Brasil, Manoel Carlos, que morreu no dia 10 de janeiro, com a canção "Per Amore", tema da novela "Por Amor" (1997). Logo em seguida foi a vez de homenagear a atriz Regina Duarte e sua eterna Viúva Porcina ao som de "Dona", imortalizada na novela "Roque Santeiro" (1986) pelo grupo Roupa Nova.
Chora Me Liga reúne fãs do sertanejo na Glória
O Chora me Liga se concentrou na Glória e reuniu fãs da "sofrência" do sertanejo. Entre os foliões que chegaram cedo ao Chora Me Liga, Manuela Gomes vestia orgulhosamente a camisa de 2024 — uma escolha que diz muito sobre sua relação com o bloco.
"A de 2023 ficou guardada em casa, em 2025 não teve... então vim com a de 2024 mesmo", contou ela, rindo.
Fã assumida da sofrência, Manuela explica que o sertanejo faz parte da vida. "É a sofrência, né? No resto do ano a gente chora, reclama... no Carnaval a gente transforma isso em diversão." Ela conta que conheceu o Chora Me Liga sozinha, sem amigos ou grupos. "Vim por curiosidade, gostei do ritmo, do clima, e continuei vindo. É diferente, é leve."
Em 2026, o Chora Me Liga vive um momento especial de reencontro com sua essência. Após mudanças no formato do desfile, o bloco celebra a alegria de estar no lugar que faz mais sentido para sua história e para o seu público.
"A gente tá muito feliz", afirmou o produtor Marcelo Vital. "O melhor lugar da gente era aqui." Segundo ele, a decisão foi construída com diálogo e entendimento, pensando na experiência dos foliões e na ocupação do espaço urbano.
Sem homenagens específicas neste ano, o desfile tem um foco claro: celebrar a identidade do Chora Me Liga. "Hoje é só alegria, só felicidade. É a história da menina raiz", resumiu o produtor.
A expectativa é de um desfile mais próximo do público, com clima leve, conexão direta com os foliões e a energia que sempre marcou o bloco.
Os vocalistas do bloco Primeiro Amor, César Queiroz e Rafa Garcez, que se apresentaram neste sábado (7), em São Conrado, fizeram uma participação especial e cantaram "Sua Boca Mente", de Ana Castela e Zé Felipe.
No trio, a dupla João Lucas e Matheus reforçou o clima de celebração e agradecimento que marcou o desfile do Chora Me Liga. Vindos de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, os artistas destacaram a alegria de participar do Carnaval de Rua do Rio.
"Viemos pegando chuva a viagem inteira, desde São Paulo, e chegar aqui agora, encontrar esse sol e essa energia de vocês, é maravilhoso. Deus abençoe demais o nosso dia e o nosso domingo", disse a dupla, agradecendo o público, a organização e o apoio da Riotur.
Em tom bem-humorado, eles ainda incentivaram os foliões a não perderem a festa, mesmo com a ameaça de chuva. "Se alguém falou que talvez não vinha por causa do tempo, era pra ligar agora e avisar: hoje a gente vai viver momentos incríveis juntos."
A fala foi recebida com entusiasmo pelo público, reforçando o clima de alegria, entrega e conexão que define o espírito do bloco.
Despedidas e tradição
Após quatro décadas, o Suvaco do Cristo se despediu das ruas do Rio neste domingo, dia 8 de fevereiro. Fundado no Jardim Botânico, o bloco se tornou um dos símbolos do carnaval carioca. O desfile derradeiro saiu com três sambas emblemáticos do bloco, dos anos de 1986, 1988 e 1992 (Divinas Axilas, Pirâmide 88 e Eco no Ar, com composições de Lenine, Mu Chebabi, Xico Chaves, entre outros). Além disso, a bandeira do Suvaco este ano teve quatro estrelas: uma homenagem aos sempre presentes no bloco Sylvia Gardenberg, Arnaldo Chain, Mestre Tião Belo e Jards Macalé.
João Avelleira, presidente do Suvaco do Cristo, destacou a importância simbólica do último desfile do bloco e o legado deixado para o Carnaval de rua. "O último desfile do Suvaco é um momento que nos enche de orgulho, porque o DNA do bloco está presente em inúmeros blocos que hoje fazem parte do Carnaval de rua. Quando começamos, havia pouquíssimos blocos desfilando. Era um período pós-ditadura, em que grandes aglomerações ainda não eram bem-vindas. O Suvaco ajudou a retomar a ocupação das ruas, que sempre foram um espaço do povo."
"Como toda boa festa, como toda boa reunião, chegou a hora da saideira. Na saideira, se a festa estiver boa, ela continua. Se não, a gente vai embora. Mas com certeza tá bom" disse o intérprete Willian Vorheers.
Joaquim Mello, integrante da bateria, destacou o carinho pelo bloco e a emoção de participar do desfile. "Eu sou Suvaco e tenho um amor enorme pelo bloco. É uma história maravilhosa, que deixa saudade. Neste ano, estar tocando repique é a realização de um sonho."
Pela manhã, outros blocos desfilaram pela cidade: o Gigantes da Lira animou a Praça Jardim Laranjeiras, mantendo a tradição carnavalesca do bairro. Já para quem preferiu curtir a folia à tarde, o Empolga às 9 concentrou foliões na Vieira Souto, em Ipanema.
Na Zona Sudoeste, a Banda da Barra reuniu milhares de pessoas na Avenida Lúcio Costa e celebrou 43 anos de samba, história e tradição, reafirmando a força e a diversidade do Carnaval de rua carioca.
A programação completa vai até o dia 22 de fevereiro e pode ser conferida no aplicativo Blocos do Rio 2026 e no site oficial https://www.carnavalderua.rio/ garantindo que todos os foliões saibam onde e quando a folia vai rolar.
Foto: Alex Ferro / RIOTUR

